Música e Autismo I


Apesar das peculiaridades dos circuitos cerebrais nos autistas, as habilidades musicais são frequentemente preservadas. As regiões cerebrais associadas à linguagem e à música se sobrepõem, o que sustenta a possibilidade de reabilitação desta através da música, que traz ainda eficaz melhoria no comportamento social e comunicativo através do aumento da atenção compartilhada. Pesquisas apontam benefícios da música na neuroplasticidade e provam que intervenções baseadas em música podem ser usadas para fortalecer conexões entre as regiões frontal e temporal, que apresentam anormalidades nos autistas. Atividades relacionadas à música envolvem imitação e sincronização, levando à ativação de áreas que contêm neurônios-espelho proporcionando o desenvolvimento da cognição social, tarefas nas quais indivíduos autistas tipicamente mostram dificuldades. O autismo faz parte dos chamados Transtornos Invasivos do Desenvolvimento (TID), os quais incluem ainda síndrome de Asperger, síndrome de Rett, transtorno desintegrativo da infância e TID sem outra especificação (DSM-IV-TR, 2000). Os pacientes com TID são agrupados por seus déficits de desenvolvimento no domínio de três áreas: 1) linguagem e comunicação, 2) reciprocidade social e 3) padrão de interesses e comportamentos (Meilleur e Fombonne, 2008). Na ausência de um marcador biológico, o diagnóstico dos TID permanece clínico. Os 12 critérios atualmente utilizados estão descritos no Manual Diagnóstico de Estatística, e na Classificação Internacional da Doença (DSM-IV-TR, 2000). Estes englobam três áreas comportamentais: habilidade social e capacidade de reconhecer de maneira suficiente o pensamento dos outros; comunicação verbal e não-verbal e por fim amplitude de interesses, flexibilidade comportamental, habilidade de mudar de atividade e de lidar com o inesperado (DSM-IV-TR, 2000). O autismo, conhecido também como transtorno autista, foi descrito originalmente por Leo Kanner em 1943 (Gadia et. al., 2004).

A musicoterapia tem uma longa tradição no transtorno autista, e há muitos relatos na literatura sugerindo que pode ser usada para melhorar as habilidades de comunicação social, como iniciar e responder a atos comunicativos (Geretsegger et. al., 2012). Estímulos musicais têm sido responsáveis por ativar regiões do cérebro associadas ao processamento de emoções (Wan; Schlaug, 2010), e também estão associados a melhorias no processamento espaço temporal (Heaton, 2009), relacionado à memória espacial, estimulando a criatividade através da manipulação mental de objetos tridimensionais na ausência de modelos físicos (Hetland, 2000). Ao realizar atividades musicais dentro de uma história comum de interação, a criança tem oportunidade de desenvolver e melhorar habilidades como a atenção compartilhada, atenção conjunta, imitação e reciprocidade, que por sua vez estão associados com posterior desenvolvimento da linguagem e competência social (Geretsegger et. al., 2012).

Pesquisas em psicologia da música enfatizam a natureza intensamente social das atividades musicais, que proporcionam, interação com outras pessoas e participação em atividades que podem facilitar o convívio social e a aquisição de linguagem e de habilidades motoras. Por esse motivo atividades musicais são constantemente usadas no tratamento de autistas, podendo assim justificar o potencial da música como instrumento terapêutico e educacional (Molnar-Szakacs et. al., 2009).


Fonte: Ciência e Cognição

Clube da Música - Daniel Imenes & Cia.: Escola de Música no Recreio, RJ.

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